terça-feira, 13 de dezembro de 2011

"Sou quem sou, porque somos todos nós" - Ubuntu!!




A  jornalista e filósofa Lia Diskin, no Festival Mundial da Paz, em Floripa (2006), nos presenteou com um caso de uma tribo na África chamada Ubuntu.
Ela  contou que um antropólogo estava estudando os usos e costumes da tribo e, quando  terminou seu trabalho, teve que esperar pelo transporte que o levaria até o aeroporto de volta pra casa. Sobrava muito tempo, mas ele não queria catequizar os membros da tribo; então, propôs uma brincadeira pras crianças, que achou ser inofensiva.

Comprou uma porção de doces e guloseimas na cidade, botou tudo num cesto bem bonito com laço de fita e tudo e colocou debaixo de uma árvore. Aí ele  chamou as crianças e combinou que quando ele dissesse "já!", elas deveriam sair correndo até o cesto, e a que chegasse primeiro ganharia todos os doces que estavam lá dentro. 

As crianças se posicionaram na linha demarcatória que ele desenhou no chão e esperaram pelo sinal combinado. Quando ele disse "Já!", instantaneamente todas   as crianças se deram as mãos e saíram correndo em direção à árvore com o cesto. Chegando lá, começaram a distribuir os doces entre si e a comerem felizes.
 
O antropólogo foi ao encontro delas e perguntou porque elas tinham ido todas juntas se uma só poderia ficar com tudo que havia no cesto e, assim, ganhar muito mais doces. 

Elas simplesmente responderam: "Ubuntu, tio. Como uma de nós  poderia ficar feliz se todas as outras estivessem tristes?"
  
Ele ficou desconcertado! Meses e meses trabalhando nisso, estudando a tribo, e ainda  não havia compreendido, de verdade,a essência daquele povo. Ou jamais teria proposto uma competição, certo?

Ubuntu significa: "Sou quem sou, porque somos todos nós!" 

Atente para o detalhe: porque SOMOS, não pelo que temos...
UBUNTU PARA VOCÊ!

A Lua que não dei....


Visitando os blog do Grupo Saberes, deparei-me com este texto, simplesmente maravilhoso... Obrigada gurias por compartilhar texto tão maravilhoso... Com a licença de vcs compartilho estas belas palavras também no meu blog...



Compreendo pais – e me encanto com eles – que desejariam dar o mundo de presente aos filhos. E, no entanto, abomino os que, a cada fim de semana, dão tudo o que filhos lhes pedem nos shoppings onde exercitam arremedos de paternidade. E não há paradoxo nisso. Dar o mundo é sentir-se um pouco como Deus, que é essa a condição de um pai. Dar futilidades como barganha de amor é, penso eu, renunciar ao sagrado.

Volto a narrar o que me aconteceu ao ser pai pela primeira vez. Lá se vão, pois, 45 anos. Deslumbrado de paixão, eu olhava a menina no berço, via-a sugando os seios da mãe, esperneando na banheira, dormindo como anjo de carne. E, então, eu me prometia, prometendo-lhe: ‘Dar-lhe-ei o mundo, meu amor.’ E não lho dei. E foi o que me salvou do egoísmo, da tola pretensão e da estupidez de confundir valores materiais com morais e espirituais.

Não dei o mundo à minha filha, mas ela quis a Lua. E não me esqueço de como ela pediu a Lua, há anos já tão distantes. Eu a carregava nos braços, pequenina e apenas balbuciante, andando na calçada de nosso quarteirão, em tempos mais amenos, quando as pessoas conversavam às portas das casas. Com ela junto ao peito, sentia-me o mais feliz homem do mundo, andando, cantarolando cantigas de ninar em plena calçada. Pois é a plenitude da felicidade um homem jovem poder carregar um filho como se acariciando as próprias entranhas. Minha filha era eu e eu era ela. Um pai é, sim, um pequeno Deus, o criador. E seu filho, a criatura bem amada.

E foi, então, que conheci a impotência e os limites humanos. Pois a filhinha – a quem eu prometera o mundo – ergueu os bracinhos para o alto e começou a quase gritar, assanhada, deslumbrada: ‘Dá, dá, dá…’ Ela descobrira a Lua e a queria para si, como ursinho de pelúcia, uma luminosa bola de brincar. Diante da magia do céu enfeitado de estrelas e de luar, minha filha me pediu a Lua e eu não lha pude dar.

A certeza de meus limites permitiu, porém, criar um pacto entre pai e filhos: se eles quisessem o impossível, fossem em busca dele. Eu lhes dera a vida, asas de voar, diretrizes, crença no amor e, portanto, estímulo aos grandes sonhos. E o sonho da primogênita começou a acontecer, num simbolismo que, ainda hoje, me amolece o coração.. Pois, ainda adolescente, lá se foi ela embora, querendo estudar no Exterior. Vi-a embarcar, a alma sangrando-me de saudade, a voz profética de Kalil Gibran em sussurros de consolo:

‘Vossos filhos não são vossos filhos, mas são os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. Eles vêm através de vós, mas não de nós. E embora vivam convosco, não vos pertencem. (…) Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas’
Foi o que vivi, quando o avião decolou, minha criança a bordo. No céu, havia uma Lua enorme, imensa.  A certeza da separação foi dilacerante. Minha filha fôra buscar a Lua que eu não lhe dera. E eu precisava conviver com a coerência do que transmitira aos filhos: ‘O lar não é o lugar de se ficar, mas para onde voltar.’

Que os filhos sejam preparados para irem-se, com a certeza de ter para onde voltar quando o cansaço, a derrota ou o desânimo inevitáveis lhes machucarem a alma. Ao ver o avião, como num filme de Spielberg, sombrear a Lua, levando-me a filha querida, o salgado das lágrimas se transformou em doçura de conforto com Kalil Gibran: como pai, não dando o mundo nem Lua aos filhos, me senti arqueiro e arco, arremessando a flecha viva em direção ao mistério.

Ora, mesmo sendo avós, temos, sim e ainda, filhos a criar, pois família é uma tribo em construção permanente. Pais envelhecem, filhos crescem, dão-nos netos e isso é a construção, o centro do mundo onde a obra da criação se renova sem nunca completar-se. De guerreiros que foram, pais se tornam pajés. E mães, curandeiras de alma e de corpo. É quando a tribo se fortalece com conselheiros, sábios que conhecem os mistérios da grande arquitetura familiar, com régua, esquadro, compasso e fio de prumo. E com palmatória moral para ensinar o óbvio: se o dever premia, o erro cobra.

Escrevo, pois, de angústias, acho que angústias de pajé, de índio velho. A nossa construção está ruindo, pois feita em areia movediça. É minúsculo o mundo que pais querem dar aos filhos: o dos shoppings. E não há mais crianças e adolescentes desejando a Lua como brinquedo ou como conquista. Sem sonhos, os tetos são baixos e o infinito pode ser comprado em lojas. Sem sonhos, não há necessidade de arqueiros arremessando flechas vivas.

Na construção familiar, temos erguido paredes. Mas, dentro delas, haverá gente de verdade?

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Gurias, aí estão algumas atividades do Dognauta.. Desculpem a demora por postar, mas minha vida deu uma guinada de 360 graus.. Mas to voltando...

https://sites.google.com/site/geempiandosempre/dognauta

Visitem e copiem a vontade!!!!!

Quero comentários!!!!

terça-feira, 26 de abril de 2011

Pedido de Desculpas....

Queridos amigos, visitantes, colegas geempianas!!!!
Estou muito atucanada com minhas turmas, ainda estou me adaptando, sei lá....
Mas logo, logo, volto a postar....

domingo, 27 de março de 2011

A História de Bruna - GEEMPA

Jovem com deficiência supera obstáculos e se formará em Pedagogia

Contrariando laudos de que teria dificuldades para se alfabetizar, Bruna receberá o canudo em agosto deste ano

Bruna Trindade Antunes vem derrubando prognósticos em torno de alunos com deficiências. Primeiro, diagnosticaram que demoraria “alguns anos” para se alfabetizar. Ela aprendeu a ler e escrever na 1ª série. Depois, avisaram que não iria longe nos estudos. Pois deverá se formar no curso de Pedagogia, em agosto, na Faculdades Integradas São Judas Tadeu, da Capital.

Em 1990, aos sete anos, Bruna foi dispensada da primeira escola em que se matriculou, na rede particular. Encaminhada para exame médico e psicológico em uma universidade, atestaram que o seu “quociente intelectual não vai além de 67, o que configura um característico quadro de debilidade mental”. Previram que demoraria para se alfabetizar.

O laudo não abateu Bruna e seus familiares. Levada a uma escola pública, foi acolhida pela professora Maria Júlia Canibal, que não se conformou com as conclusões sobre a deficiência. Notava que a aluna apresentava dificuldades motoras, principalmente ao se locomover, mas demonstrava uma vontade férrea de aprender.

– Acreditei na capacidade dela, pedi que os outros alunos ajudassem – conta Maria Júlia.

terça-feira, 15 de março de 2011

Alfabeto Enfurecido...

Pensando em uma aula sobre Arte para meus alunos de 1° e 2° ano, deparei-me com o material didático da Fundação Ibere Camargo sobre a exposição "O Alfabeto Enfurecido" - Mira Schendel e León Ferrari, que tive o prazer de visitar por duas vezes, uma na capacitação de professores que a fundação oferece, dentro do seu projeto educativo e outra, numa atividade cultural, durante uma Assessoria do Geempa.... Pensando nesta proposta, lembrei-me de um texto que a Maravilhosa Esther escreveu...
Deliciem-se!!!!!


O alfabeto enfurecido

O alfabeto só pode estar enfurecido no mundo, mas muito especialmente no Brasil. Quantas pessoas não podem usá-lo? Para quantos o alfabeto não diz nada? Eles são cegos para a escrita. Eles não podem entrar nos jogos com as letras do alfabeto? E, no Brasil, adultos são 50 milhões. E crianças, são 3 milhões que em cada final de ano letivo não conseguem a maravilha de juntar as letras. O alfabeto tem que enfurecer-se.

Oportuníssimo é o título da exposição que está na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre. Ele se casa bem com a de Helio Oiticica, que está no Espaço Cultural do Banco Itaú em São Paulo, cujo título é “O museu é o mundo”. Que se complementa com a afirmação também de Oiticica de que “a arte é a experiência cotidiana”. A arte é, ao lado da ciência, uma tentativa de nos entender e de entender o mundo. Porém, a arte, em relação à ciência, leva uma vantagem – a de que toca nossos afetos, nos afeta emocionalmente, ao mesmo tempo em que explica.

Uma exposição de dois artistas muito próximos a nós, Mira Schendel, quase brasileira, e Leon Ferrari, vizinho de porta, porque é argentino, cheia de letras e de escritos, com este título: “O Alfabeto Enfurecido” se associa magnificamente aos 40 anos do Geempa, ONG que tem no centro de suas ações o intento de acalmar o alfabeto, ensinando a ler e a escrever a muitos. Quem se alfabetiza doma o alfabeto, isto é, transforma um animal selvagem domesticando-o. Quem se alfabetiza acalma literalmente o alfabeto enfurecido. É assim que os analfabetos percebem as letras – como um monstro enfurecido que as ameaça, porque eles não as entendem, mas, principalmente, porque, por sua falta, eles estão por fora de um veículo de comunicação estupendo que é a escrita.

Associa-se à exposição de Ferrari e Mira o filme de Chabrol, no qual uma moça francesa mata a família para a qual trabalha, quando na família se descobre que ela não sabe ler. Não saber ler é uma experiência dolorosa e profunda de solidão, porque condena à não participação na riqueza das conversas que só a letra escrita proporciona. Neste momento, é muito gratificante coordenar vários esforços, de governantes nacionais, estaduais e municipais para abrir as portas da escrita a mais de 200.000 alunos. Comemorando seus 40 anos o Geempa é convocado pelo MEC, pela Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul e ainda por vários municípios para capacitar alfabetizadores que realmente ensinem a ler e a escrever em um período letivo. Pois é importantíssimo alfabetizar durante um período letivo, no contexto de uma experiência coletiva fazendo parte de uma turma de alunos. O alfabeto enfurecido ainda se enfurece mais para alunos que não se alfabetizam em um período letivo. É um terrível engano pedagógico, sob o pretexto de que a aprendizagem seria um processo contínuo, pensar que a alfabetização pode ocorrer nos dois primeiros anos do Ensino Fundamental. Cristalinamente não, por sólidas razões científicas, tanto teóricas como práticas. A alfabetização ocorre em um período letivo, por razões muito concretas. Escolha-se, então, em que idade se pretende alfabetizar – aos 6 ou aos 7 anos – mas organize-se a alfabetização para um período letivo, pois:
·         os processos de aprendizagem não são individuais
·         os processos de aprendizagem não são contínuos
·         o sofrimento de não aprender não é sentido somente quando o aluno é oficialmente reprovado. Ele o vive agudamente durante todo o processo.
Tudo isto adquire ainda mais sentido quando se consegue alfabetizar em quatro meses, como estão fazendo milhares de professores no Brasil, no Programa de Correção de Fluxo Escolar na Alfabetização, baseando-se no suporte teórico pós-construtivista.
 Concreta e felizmente eles estão apaziguando o Alfabeto Enfurecido.

Esther Pillar Grossi
Doutora pela Universidade de Paris

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Mais um texto denso da Esther....

Nós, professores, precisamos estudar, por Esther Pillar Grossi

As grandes lacunas do ensino, no mundo, são duas que se articulam entre si: a mistura de modelos teóricos para dar sustentação à pratica docente e a debilidade da formação acadêmica dos professores. Com isto, falta-nos competência científica para exercer nossa profissão e cumprir nosso papel social, que é de possibilitar aos alunos o acesso aos bens da cultura, das ciências e das artes que nos legaram nossos antepassados.

Paulo Freire insistiu, alto e bom som, em que "por trás de toda prática, há uma teoria". Se esta teoria é inconsistente, os resultados da prática estão comprometidos fatalmente. Não é preciso nem verificação empírica. É previsível de antemão.

Quando, em medicina, um tratamento não tem a ver com o diagnóstico, não se faz necessário esperar para ver que não funcionará. Quando na construção civil não se seguem princípios básicos de engenharia, em suas descobertas mais recentes e avançadas, pode-se esperar o pior das obras construídas.

Em educação, se passa o mesmo. Se forem utilizados recursos inadequados, porque superados, todas as avaliações de aprendizagem escancararão índices baixos, pela lógica do princípio de causa e efeito.

Toda atividade humana tende a evoluir e a se modificar. Em educação, a evolução é mínima. Uma sala de aula, nos melhores colégios, até na disposição espacial de alunos e professores, continua a mesma desde o nascimento da escola: professores à frente, escrevendo no quadro, alunos uns atrás dos outros, em silêncio, ouvindo e copiando. O professor assistencialisticamente dando aula, dando matéria e dando nota.

Como conciliar essa estrutura escolar com a constatação piagetiana dos idos de 1980 de que há momentos em que se aprende mais e melhor com os colegas do que com o professor, alternadamente em duas fases do belo processo de aprender?

Como deixar-se invadir pela revolucionária constatação de Jacotot, no longínquo ano de 1820, de que explicar não é ensinar? Mais radicalmente ainda, ele afirmou que explicar embrutece. Só se ensina provocando o aluno a pensar, ajudando-o a encontrar-se com suas ignorâncias. É ao mesmo tempo surpreendente e interessante que, muitos anos mais tarde, Sara Pain, com sua imensa sabedoria, mostrou que ignorância não é burrice. Que ignorância tem uma função indispensável na construção de conhecimentos por que a gente só aprende se tem faltas a preencher, que são as ignorâncias. Isto tudo parece simples e fácil dito assim em um texto, mas, para levar essa riqueza toda para a sala de aula, são necessários muito investimento, muita coragem de mudar, muita lucidez, muita humildade e ética, muito compromisso com o ser humano, principalmente, com aquele que freqüenta as redes públicas de ensino.

Surpreende muito que esteja sendo oferecido um Fórum Social pelas Aprendizagens, com uma consistente estrutura de conteúdos atualíssimos nas vivências escolares e que não haja uma invasão de interessados, tanto de escolas públicas quanto particulares ou de universidades. Provavelmente, a escusa para este pouco interesse é de que estamos no fim de ano. Mas é no fim do ano que as escolas apalpam o quanto ensinaram pouco. É portanto um momento propício para serem motivadas por aquela falta que Sara Pain afirma ser o motor para que se busque aprender mais.

Felizmente, professores que fizeram parte do projeto "Alfabetização de alunos com seis anos", de 20 municípios gaúchos, já acorreram para o prazer de estudar, junto com colombianos e brasileiros de outros Estados, mesmo no mês de dezembro, ao final do ano letivo. (Zero Hora – Porto Alegre-RS)


Colei do Blog da minha colega Rita.... Esmapocart.... Valeu!!!

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

As aulas estão voltando....

As aulas estão voltando!!!
Quanta coisa para pensar, organizar, escolher...
Planejamentos a mil, expectativas... 
Um novo ano letivo nos espera, 
que ele seja repleto de realizações,
sucessos e muita satisfação...
Rumo aos 100% SEMPREEEEEE!!!!!
AVANTE GEEMPIANAS!!!!!!

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A memória é uma arma humana....

A memória é uma arma humana

*por Esther Grossi
Zero Hora - 01.02.2011

Esta afirmação da nossa presidente Dilma Rousseff, na cerimônia do Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, em Porto Alegre, neste ano de 2011, dia 28 de janeiro, tem tudo a ver com a frase célebre de Sara Pain - "nós somos as nossas recordações"; ou, em sua língua materna - "nosotros somos nuestros recuerdos". Como seres de cultura e não de natureza, não estamos predeterminados por instintos. Constituímo-nos como pessoas a partir de nossas experiências entre pessoas, das quais construímos nosso acervo de recordações. E somos responsáveis pelo que fazemos com nossas recordações, pois elas são armas. E uma arma pode servir tanto para nos defender como também pode servir para matar a nós e/ou a outros.
É que, em verdade, nós não somos todo o conjunto de nossas recordações, porque ele é riquíssimo. Nós somos aquelas lembranças que pinçamos dentre todas, por serem as mais significativas. Porém, o que dá significado às nossas recordações é a dupla "prazer e dor". Toda recordação está associada a algum afeto, isto é, a algo que nos afetou. Guardamos na nossa memória episódios de nossa vida que nos afetaram mais que outros, que nos fizeram muito felizes ou muito infelizes. E elas passam a nos orientar de acordo com nossa bússola, a qual está sempre voltada para o polo encantado do prazer. Temos como vocação tentar ser felizes.
A partir de nossas recordações, que encerram ideias sobre o que pode ou não nos dar prazer, é que decidimos nosso rumo. Amamos o que nos parece que pode nos causar prazer e odiamos o que pensamos que pode nos causar dor. Mas aqui ocorre um fenômeno curioso - quando sofremos muito, se não tivermos ocasião de compreender minimamente o que aconteceu, facilmente nos enganamos sobre a causa do sofrimento. E a arma que vem desta recordação terá uma mira equivocada. Ela acaba sendo perigosa para nós mesmos e também para outros que pensamos ter parte na responsabilidade por nosso sofrimento.
Por isso, o editorial de Zero Hora, dois dias depois do pronunciamento da presidente, adverte adequadamente: "A memória somente será uma arma de paz se for municiada pela verdade". Por sugestão de Walter Kohan, acrescentamos que seja municiada por verdades que expandam a vida, que nos tragam alegria, que ampliem a justiça e não por aquelas carregadas de preconceitos, de ressentimentos ou de culpas, ou de medos.
Reconstituir a verdade sobre o que nos faz sofrer e que foi mal caracterizada não é tarefa fácil. Requer a coragem de trazer à tona o sofrimento que foi recalcado para que, junto com ele, se refaça a ideia que a ele ficou associada indevidamente.
Por isso, nada melhor do que, na hora de um sofrimento, por doloroso que seja, sempre que possível, criar-se condições para que se o analise. E análise implica pôr palavras a respeito do que aconteceu. Pôr palavras significa dialogar com alguém. Sem interlocutor, a análise não faz sentido. E mais, é preciso uma interlocução que nos desperte energias para tarefa tão necessária, mas tão difícil.
O bom será se pudermos, como a Dora do filme Central do Brasil, chegar ao ponto de poder escrever - "tenho saudade de tudo". Na interlocução extraordinária com Josué, ela descobriu que seu pai bêbado podia ter qualidades, como as descobriu no pai, também bêbado, de Josué.
Que multipliquemos a interlocução entre nós, aprendendo a ajudar-nos a só associar algumas boas verdades às nossas recordações.